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O AGORA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Reflexões sobre uma viagem minha com grande ajuda de IA na redação final

  • Foto do escritor: Luiz  de Campos Salles
    Luiz de Campos Salles
  • 7 de jan.
  • 4 min de leitura

Não embarquei num navio em Málaga (Espanha) simplesmente para atravessar o Atlântico. Embarquei para revisitar uma velha promessa que fiz a mim mesmo quando era menino e para testar uma questão muito adulta: sou capaz de viajar sozinho — e realmente gostar disso? Quando criança, ao cruzar o oceano com meus pais em navios com destino aos Estados Unidos, fiquei tão fascinado pela vida no mar que imaginei brevemente um futuro como engenheiro naval. Naquela época, o navio era um playground e uma fantasia. Agora, muitos anos e cinco filhos depois, ele se tornou um palco no qual eu queria medir minha autonomia.w3schools

A decisão de navegar de Málaga a Miami foi, portanto, menos impulsiva do que poderia parecer. Foi uma experiência cuidadosamente escolhida. Por um lado, havia a nostalgia: o desejo de sentir novamente o ritmo de uma longa viagem, o lento avanço no mapa, o horizonte azul que se recusa a terminar. Por outro lado, havia uma lista de preocupações muito concretas, começando pelo meu problema crônico na região lombar — uma condição que me acompanhará até o fim da vida e exige uma negociação diária com a dor e os limites. Acrescente a isso o medo de ficar doente a bordo, o risco de cair em um piso em movimento, a dúvida sobre se eu seria capaz de acompanhar as excursões e a possibilidade de me perder ao explorar sozinha. É justo dizer que não embarquei despreparado para as preocupações.w3schools

Como me conheço bem, fiz o que muitas vezes me salvou em outras situações: me preparei. Antes da viagem, “treinei” com o Google Maps, ensaiando trajetos como se estivesse estudando para um exame sobre não se perder. Também prestei atenção a algo que pode parecer secundário para alguns, mas que é fundamental para mim: a alimentação. Minha dieta é restrita, e a experiência já me ensinou que viajar com um estômago disciplinado é um desafio logístico constante. Então, embarquei sabendo que, além do mar, teria que navegar pelos cardápios.w3schools

A viagem começou em terra, com quatro dias em Málaga. Caminhando pela cidade, confirmei que um aplicativo de mapas no bolso é uma boa companhia, mas não elimina completamente pequenas desventuras. Eu me perdi algumas vezes, refiz meus passos, recalculei rotas e, no final, sempre encontrei o caminho de volta. Esse simples fato — ser capaz de se perder e depois “desperder-se” — era mais do que um detalhe logístico; era uma prova silenciosa de que viajar sozinho é uma habilidade que pode ser aprendida e aprimorada, não um talento inato que se tem ou não se tem. A comida, como era de se esperar, foi um adversário mais difícil. Os pratos locais pareciam excelentes, mas minha dieta filtrou muitas opções, forçando-me a uma negociação constante entre o que eu queria e o que eu realmente podia comer.


Essa tensão não desapareceu quando embarquei no navio; ela cruzou o oceano comigo.w3schools


Uma das curiosidades dessa viagem é que uma fantasia de infância — sentir o navio balançando no mar — encontrou, na vida adulta, a realidade de um corpo que não coopera totalmente. A ideia romântica de caminhar por corredores em movimento suave deu lugar a uma cena mais prosaica: um homem com a região lombar frágil, calculando cada passo em um piso que parece mudar de ideia a cada poucos segundos. Caminhar tornou-se uma espécie de meditação em movimento, uma mistura de concentração e cautela. Não foi trágico, mas certamente não foi o passeio despreocupado que eu havia imaginado.w3schools


Então veio o episódio que nenhum viajante quer em seu itinerário: desenvolvi outro surto de pneumonia. Em vez de ser internado em um hospital familiar em terra, me vi no centro médico do navio, sob os cuidados de um médico e uma enfermeira filipinos. Eles me trataram corretamente, mas as diferenças de idioma e sotaque adicionaram uma pequena camada de incerteza justamente onde a clareza é mais bem-vinda. Uma coisa é lidar com problemas de saúde em seu próprio idioma, em um ambiente familiar; outra coisa é fazer isso em uma cidade flutuante, a dias de distância do porto mais próximo. Essa experiência transformou o cruzeiro em algo mais do que turismo: tornou-se um teste sério à minha capacidade de manter a calma, fazer perguntas e tomar decisões quando o roteiro sai dos trilhos.


No entanto, quando olho para a viagem como um todo — Málaga, os dias no mar, as dificuldades, o hospital a bordo — o que permanece não é o medo, mas uma profunda sensação de realização. Apesar da minha condição crônica nas costas, do desafio da minha dieta, do risco de cair e da pneumonia, descobri algo simples e poderoso: posso viajar sozinha e gostar disso. A condição, para mim, é clara: preciso escolher com antecedência o que estou disposta a enfrentar. Isso significa planejar rotas, respeitar limites físicos, aceitar que alguns passeios não serão para mim, antecipar onde encontrarei comida adequada à minha saúde e reconhecer que a doença é uma possibilidade que pode ser gerenciada, mas não completamente eliminada.

Este cruzeiro, que termina daqui a alguns dias, não me transformou na engenheira naval que eu imaginava quando criança. Ele fez algo mais relevante nesta fase da vida: mostrou-me que a autonomia não é uma ideia abstrata, mas uma prática. Viajar sozinho não significa ser destemido; significa conhecer bem os seus medos para viajar com eles a bordo, sem deixar que eles comandem o navio. Entre Málaga e Miami, o oceano era vasto, mas o que realmente se expandiu foi a minha sensação do que ainda é possível.

 
 

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