NÃO EMBARQUEI NUM NAVIO EM MÁLAGA SÓ PARA ATRAVESSAR O ATLÂNTICO
- Luiz de Campos Salles

- há 2 dias
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Atualizado: há 22 horas

Não embarquei no navio em Málaga só pra atravessar o Atlântico. Embarquei para revisitar uma velha promessa que fiz pra mim mesmo quando era criança e para testar uma questão bem adulta: sou capaz de viajar sozinho — e realmente curtir isso? Quando criança, ao cruzar o oceano com meus pais em navios com destino aos Estados Unidos, fiquei tão fascinado pela vida no mar que imaginei brevemente um futuro como engenheiro naval. Naquela época, o navio era um playground e uma fantasia. Agora, muitos anos e cinco filhos depois, ele se tornou um palco no qual eu queria medir minha autonomia.
A decisão de navegar de Málaga a Miami foi, portanto, menos impulsiva do que poderia parecer. Foi uma experiência cuidadosamente escolhida. Por um lado, havia a nostalgia: o desejo de sentir novamente o ritmo de uma longa viagem, o lento avanço no mapa, o horizonte azul que se recusa a terminar. Por outro lado, havia uma lista de preocupações muito concretas, começando pelo meu problema crônico na região lombar — uma condição que me acompanhará até o fim da vida e exige uma negociação diária com a dor e os limites. Acrescente a isso o medo de ficar doente a bordo, o risco de cair em um piso em movimento, a dúvida sobre se eu seria capaz de acompanhar as excursões e a possibilidade de me perder ao explorar sozinha. É justo dizer que não embarquei despreparado para as preocupações.
Como me conheço bem, fiz o que muitas vezes me salvou em outras situações: me preparei. Antes da viagem, “treinei” com o Google Maps, ensaiando trajetos como se estivesse estudando para um exame sobre não se perder. Também prestei atenção a algo que pode parecer secundário para alguns, mas que é fundamental para mim: a comida. Minha dieta é restrita, e a experiência já me ensinou que viajar com um estômago disciplinado é um desafio logístico constante. Então, embarquei sabendo que, além do mar, teria que navegar pelos cardápios.
A viagem começou em terra, com quatro dias em Málaga. Caminhando pela cidade, confirmei que um aplicativo de mapas no bolso é uma boa companhia, mas não elimina completamente pequenos contratempos. Eu me perdi algumas vezes, refiz meus passos, recalculei rotas e, no final, sempre encontrei o caminho de volta. Esse fato simples — ser capaz de se perder e depois “desperder-se” — foi mais do que um detalhe logístico; foi uma prova silenciosa de que viajar sozinho é uma habilidade que pode ser aprendida e aprimorada, não um talento inato que se tem ou não se tem.
A comida, como esperado, foi um adversário mais difícil. Os pratos locais pareciam excelentes, mas minha dieta filtrou muitas opções, forçando-me a uma negociação constante entre o que eu queria e o que eu realmente podia comer. Essa tensão não desapareceu quando embarquei no navio; ela cruzou o oceano comigo.
Uma das curiosidades dessa viagem é que uma fantasia de infância — sentir o navio balançando no mar — encontrou, na vida adulta, a realidade de um corpo que não coopera totalmente. A ideia romântica de caminhar por corredores em movimento suave deu lugar a uma cena mais prosaica: um homem com a região lombar frágil, calculando cada passo em um piso que parece mudar de ideia a cada poucos segundos. Caminhar tornou-se uma espécie de meditação em movimento, uma mistura de concentração e cautela. Não foi trágico, mas certamente não foi o passeio despreocupado que eu imaginava.
Então veio o episódio que nenhum viajante quer em seu itinerário: desenvolvi outra pneumonia. Em vez de ser internado em um hospital familiar em terra, me vi no centro médico do navio, sob os cuidados de um médico e uma enfermeira filipinos. Eles me trataram corretamente, mas as diferenças de idioma e sotaque adicionaram uma pequena camada de incerteza justamente onde a clareza é mais bem-vinda.
Uma coisa é lidar com problemas de saúde no seu próprio idioma, em um ambiente familiar; outra coisa é fazer isso em uma cidade flutuante, a dias de distância do porto mais próximo. Essa experiência transformou o cruzeiro em algo mais do que turismo: tornou-se um teste sério à minha capacidade de manter a calma, fazer perguntas e tomar decisões quando o roteiro sai dos trilhos.
No entanto, quando olho para a viagem como um todo — Málaga, os dias no mar, as dificuldades, o hospital a bordo — o que fica não é o medo, mas uma profunda sensação de realização. Apesar da minha condição crônica nas costas, do desafio da minha dieta, do risco de cair e da pneumonia, descobri algo simples e poderoso: posso viajar sozinho e gostar disso. A condição, para mim, é clara: preciso escolher com antecedência o que estou disposto a enfrentar. Isso significa planejar rotas, respeitar limites físicos, aceitar que alguns passeios não serão para mim, antecipar onde encontrarei comida adequada à minha saúde e reconhecer que a doença é uma possibilidade que pode ser gerenciada, mas não completamente eliminada.
Este cruzeiro, que termina daqui a alguns dias, não me transformou no engenheiro naval que eu imaginava quando criança. Ele fez algo mais relevante nesta fase da vida: mostrou-me que a autonomia não é uma ideia abstrata, mas uma prática.
Viajar sozinho não significa ser destemido; significa conhecer bem os seus medos para viajar com eles a bordo, sem deixar que eles comandem o navio. Entre Málaga e Miami, o oceano era vasto, mas o que realmente se expandiu foi a minha sensação do que ainda é possível.